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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Poemas nossos de cada dia.

Quando a gente não tem o que falar, a gente lembra que poetas e compositores falam por nós. 
Na minha música, na minha poesia, eu deixo o silêncio e, para não calar, eu deixo Drummond.

Resíduos

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço? vazio ? de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

                               (Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Porque poeta bom é poeta vivo.

   Sempre prestigiada por bons poetas, trago mais uma obra-prima de Thiago Braz.

Filho do batuque
Por Thiago Braz

Eu sou samba da cabeça aos pés
Adornado pelo perfume do sorriso de meus amigos
Cada célula de meu corpo tem a alegria de um bom batuque
E a harmonia de uma grande melodia

A minha alma é moldada à imagem e semelhança da fé
no amor e no próximo
Meus pensamentos são alimentados de esperança
Meu corpo é feito do sabor da paixão e temperado com ousadia
Meu ar é a amizade
Meu sol é a sabedoria
A confiança, minha estrela-guia
Meu fim?!
Ah, meu fim é o mar infinito!




quarta-feira, 25 de julho de 2012

A Marca de uma lágrima

   Esse foi o livro que me tornou uma apaixonada pelo mundo das Letras. Até bem pouco tempo era o meu livro favorito, pois com certeza foi um divisor de águas para a minha biografia. E este poema eu sabia todo de cor. Hoje, por acaso, me peguei lembrando de trechos dele. Se é pra falar de amor, nada mais justo do que falar de um amor juvenil, puro, platônico e desmedido.

"E o meu amado o que diria
Se eu partisse?
O que diria esse versos
Nao ouvisse ?
O que teria em suas mãos
Se não um corpo dessangrado,
Cheio de carnes,de suspiros,
De delirio apaixonado?
Falharia ,poréem,o recheio das ideias
A loucura e a razão
Que transformam um encontro sem graça
Em tremenda paixão
Mas não tema meu querido
Que esse amor desapareça ,
Pois ele é amado ao mesmo tempo
Por um corpo e uma cabeça
O corpo ele pode beijar cheirar,
Fazer do corpo mulher.
Mas a cabeça o possui,manipula,
E faz dela o que quer!
Haja o que houver do meu amor
Esse garoto foi o rei.
Digam a ele que com o corpo e cabeça
Eu sempre o amarei
A marca desta lágrima testemunha
Que eu o amei perdidamente
Em suas mãos depositei a minha vida
E me entreguei completamente
Assinei com minha lágrimas
Cada verso que lhe dei
Como se fossem confetes
De um carnaval que não brinquei
Mas a cabeça apaixonada delirou,
Foi farsante, vigarista, mascarada!
Foi amante entregando-lhe a outra amada
Foi covarde que amando nunca amou! "


(Pedro Bandeira)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cartas de amor

       Todas as Cartas de Amor são Ridículas
        por Álvaro de Campos

       Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.

       Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
       Como as outras,
       Ridículas.

       As cartas de amor, se há amor, 
       Têm de ser
       Ridículas.

       Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram 
       Cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       Quem me dera no tempo em que escrevia 
       Sem dar por isso
       Cartas de amor
       Ridículas.

       A verdade é que hoje 
       As minhas memórias 
       Dessas cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       (Todas as palavras esdrúxulas,
       Como os sentimentos esdrúxulos,
       São naturalmente
       Ridículas.)